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Modelo de novas viaturas da Brigada Militar não é consenso entre especialistas

28 de dezembro de 2017

A compra de 192 unidades do Toyota Corolla, ao custo de R$ 100 mil cada, para serem utilizadas como viaturas pela Brigada Militar no policiamento ostensivo, provoca debates nas redes sociais e não é consenso entre especialistas em veículos e em segurança pública: parte avalia como acerto que colocará a patrulha em pé de igualdade com organizações criminosas neste quesito, enquanto outra parcela aponta que automóveis menos luxuosos e de desempenho semelhante poderiam ter recebido preferência, o que renderia a aquisição de novas unidades em maior quantidade.

Em duas compras feitas em 2014, o governo estadual equipou a polícia com veículos das marcas Fiat e Renault, que se aproximaram da metade do custo dos Corolla.
Entre os principais argumentos daqueles que aprovaram o negócio, despontam a qualidade do automóvel, líder nacional na categoria dos sedãs médios, a durabilidade e o baixo custo de manutenção. Em comparação com modelos de características semelhantes de cinco montadoras distintas, o Corolla tem preço médio inferior a três deles.

A primeira remessa, com 106 viaturas, foi entregue na terça-feira pelo governador José Ivo Sartori e pelo secretário da Segurança, Cezar Schirmer. Em fevereiro, com o segundo lote, serão adquiridos, no total, 238 veículos, incluindo 30 caminhonetes Mitsubishi e 16 Hilux. O investimento é de R$ 25 milhões, sendo R$ 14,4 milhões do governo estadual e R$ 10,6 milhões de uma linha do BNDES, o Programa de Apoio ao Investimento dos Estados (Proinveste).

O Corolla compete com carros populares na lista dos líderes gerais de mercado. Segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), o modelo é o quarto mais comercializado no Brasil neste mês. A alta procura é atribuída ao desempenho.

– Em termos de custo-benefício, o Corolla fica em primeiro lugar. É um carro confiável, vai durar mais tempo e com baixo custo de manutenção. Pode fazer 300 mil quilômetros sem precisar de manutenção básica de freios, filtros, correias e velas – diz Paulo Hoerlle, especialista em reparação de veículos com 48 anos de atuação no mercado.

Outros modelos da categoria, como o Volkswagen Jetta, o Chevrolet Cruze e o Honda Civic, são mais caros. Já o Ford Focus e o Renault Fluence, destaca Hoerlle, apresentam preço mais baixo do que o Corolla.

Além das características do veículo, o debate sobre a frota passa pela conveniência de adaptar o Corolla ao padrão de viatura – cada carro recebeu investimento de R$ 18 mil na fábrica para a instalação de giroflex, rádio, pintura e bateria extra.

Consultor da área e ex-secretário nacional de segurança pública, José Vicente da Silva Filho destaca o caráter inusitado da compra se comparada às práticas de grandes centros urbanos como Rio e São Paulo.

– Desconheço o uso (do Corolla na frota), ao menos em São Paulo e Rio, onde as licitações são feitas pelo menor preço. Me parece que é um veículo de muito luxo, desproporcional à necessidade da polícia. Com o preço de cem Corollas, daria para comprar 130 ou 150 viaturas de um modelo mais barato – aponta Filho.

Para o promotor Cláudio Calo, do MP do Rio, o reforço deve ser discutido operacional e financeiramente.

– O Corolla é excelente para a PM, é ágil para perseguições. Mas temos de analisar o seguinte: a crise financeira do Rio Grande é parecida com a do Rio. É melhor investir em carro de R$ 100 mil ou em de R$ 60 mil? – conclui.

O caso de São Paulo ilustra o exemplo: em novembro de 2017, o governo paulista investiu R$ 13,7 milhões para entregar 196 viaturas GM Spin à Polícia Militar. O custo unitário foi de R$ 69,9 mil, cerca de R$ 30 mil a menos do que os modelos Corolla adquiridos pelo Rio Grande do Sul.  
– É um carro urbano, forte e ágil. O veículo precisa ser consistente na proporção adequada para enfrentar a criminalidade, que está extremamente avançada e violenta – contrapõe o ex-comandante da BM, coronel Paulo Roberto Mendes.

"Registro de preços"
Em maio, julho e novembro de 2017, a Secretaria da Segurança Pública lançou três pregões para a compra de viaturas, mas foram declarados desertos ou fracassados, seja pela ausência de interessados ou pela apresentação de propostas acima do valor de referência. Depois disso, o governo estadual resolveu adotar o modelo de compra de “registro de preços”, previsto pela Lei das Licitações.

A partir deste expediente, a SSP utilizou os parâmetros de uma licitação do governo do Distrito Federal – pregão eletrônico de registro de preço 50/2016 da PMDF – para fazer a aquisição das viaturas, incluindo os 192 Corollas.

Para se valer da licitação do DF, a SSP-RS também alega que estava prestes a perder o prazo para utilização da verba federal, já que o contrato de financiamento previa limite de pagamento aos credores até dezembro de 2017.

BRIGADA X BRIGADA
– Em 2017, o governo gaúcho adquiriu 192 Toyota Corolla ao custo unitário de R$ 100 mil

– Em 2014, foram adquiridas para a Brigada Militar 160 Fiat Palio Weekend Adventure ao custo unitário de R$ 61,6 mil

– Ainda em 2014, a Brigada Militar recebeu 30 viaturas da marca/modelo Renault Duster Dynamique ao custo unitário de R$ 56,3 mil

O Corolla da BM
– 153 cavalos de potência
– Motor 2.0 dual flex
– Modo sequencial de sete velocidades
– Airbags laterais, frontais e de joelho para o motorista
– Botão de ignição

Outros carros da categoria sedã médio*
– Toyota Corolla 2.0 – R$ 90,9 mil
– Volkswagen Jetta 2.0 – R$ 117 mil
– Chevrolet Cruze 1.4 – R$ 107,9 mil
– Honda Civic 2.0 – R$ 106,9 mil
– Ford Focus 2.0 – R$ 77,9 mil
– Renault Fluence – R$ 76,9 mil

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